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Coluna do Adaury 19/06/2017

Coluna do Adaury 19.06

 

Aos leitores, bom dia. 
Começo a coluna de hoje repassando uma mensagem.

Peço encarecidamente para que meu amigo locutor, Sr. Antonio Marcos, da Radio Clube FM para que se possível repassar este pedido de ajuda em seu programa líder de audiência. 

 

CARTA ABERTA

POLLIANA APÓSTOLO SOARES (FILHA DE UM ALCOÓLATRA)

 

Meu nome é Polliana Apóstolo Soares (33 anos), Pedagoga, casada com (Andres Costa), mãe de três lindos filhos (Ana Clara, André Luiz e Gabriel) dos quais tenho muito orgulho. Dois irmãos (Vinícius e Luana) companheiros de lutas e aflições nessa jornada que vou contar. Sou fruto de uma mãe Guerreira e Espetacular (Reinalva), acho que até o final da minha vida não acharei adjetivos para defini-la. Sou a filha primogênita de um homem (Valdionor) que desde a adolescência se envolveu com o Álcool e hoje aos 54 anos está vivendo a sua decadência. O fundo do Poço? Talvez sim. Mas a esperança ainda sobrevive num cantinho bem ali que não sei onde está, mas sei que existe. Pois cremos em um Deus que sempre caminhou conosco.

Bem, a minha jornada começa na barriga da minha mãe, quando devo ter escutado e vivenciado muitas brigas, choros, etc. Ah! Augusto Cury, você e suas janelas killer(são aquelas criadas por memórias ruins e traumatizantes, que normalmente dominam nossos pensamentos) definem tão bem o resultado de minhas memórias. 

Descobri desde a mais tenra idade (03 anos) mesmo sem saber o que era o Alcoolismo que essa era a principal doença do meu pai. Vi meu herói que gostava de cantar pra eu e meu irmão dormir na cadeira de balanço, tornar-se um Monstro Grande e Forte daqueles impossíveis de se combater. Perdoe-me Pai e Perdoe-me Mãe, Perdoe – me  irmãos mas preciso falar. Não para massacrá-lo, mas para alertar o quanto nós filhos de alcoólatras precisamos nos libertar ao invés de reprimirmos. Precisamos partilhar nossas experiências e sentimentos para que não doa tanto como está doendo agora em mim.  Quantas vezes você chegava em casa meu Pai, embriagado e transtornado. A violência era tamanha que não dava tempo nem de pensarmos por qual motivo? O que fizera minha mãe dessa vez? Que culpa temos? Até quando?

Um dia li em um livro “Meu pai bebia demais e hoje sou um adulto que sofre” que para sobreviver no inferno que se torna a casa de um alcoólatra cada filho assume um papel diferente. E aos 05 anos assumi o meu papel de filha salvadora da pátria, responsável por tudo e por todos. Nada escapava aos meus olhos. No auge da sua loucura você costumava me falar que a gente ia morrer que íamos para um lugar melhor. Ai Pai! Até hoje consigo sentir as sensações de medo, dor, tristeza daquele momento. Já não era mais meu herói e sim um dos meus maiores pesadelos. E a vida ia passando, dias bons, dias não tão bons, dias ruins e dias muito ruins. Fomos crescendo nessa inconstância, uma hora você estava bem, era um bom pai, outra hora tudo desabava! Lembro- me sim dos dias bons, aqueles em que fomos tão felizes. Eu e meus irmãos não víamos à hora de você chegar do trabalho pra cantar músicas de Sérgio Reis pra gente. Dos piqueniques na Água Bela, dos jantares na Churrascaria Cabana. Só que essa felicidade era como um conto de Fada. Sabíamos que a qualquer momento a rainha má viria com sua maçã envenenada e tudo desmoronaria. Começaria tudo de novo… Esconder facas, olhar meus irmãos pequenos, cuidar da minha mãe e ainda ter que ir estudar para ser alguém na vida.

E assim fomos vivendo eu e a minha família convivendo com o seu alcoolismo pai que outrora era o nosso herói, mas que quando tomava o primeiro gole se transformava em um ser capaz de coisas horríveis que doe na alma só de relatar. Se fosse falar daria um livro enorme. Vendo minha mãe lutar a trancos e barrancos pela sua restauração. Hoje ela também está doente e ainda quer vê-lo bem, sóbrio, restaurado.

Na escola nunca fui excelente aluna, mas estava na média. Caladinha, quietinha no meu canto, solitária em meu mundo. Mundo esse que só entrava poucas pessoas. Amigos que sabiam do problema que passava a minha família e não iam se assustar caso encontrasse uma cena incomum. Tinha medo, insegurança, ansiedade, tinha dificuldade de expressar meus sentimentos, sentia culpa. Nunca pude chamar ninguém para ir até a minha casa, pois tinha medo do que meus colegas pudessem encontrar. Quantas vezes só pude estudar de madrugada ou então nem conseguia. Nas madrugadas ficava esperando você chegar. Colocava o meu travesseiro perto da porta para você não precisar tocar a campainha e fazer barulho acordando a minha mãe. Recebia-te, alimentava-te e com muito sufoco te colocava pra dormir. No outro dia tinha que estar de pé para ir para a escola. Você vomitava até não aguentar mais. Ia tomar soro, ficava bom alguns dias, às vezes meses (muito raro).

Na Escola sentava sempre do lado da janela, tinha poucos amigos. E ali minha mente voava direto pra minha casa. Preocupada com todos. Mas Deus me ajudou e consegui concluir o Ensino Médio. Não me lembro de sua presença na Missa de Ação de Graças. Encontrei o grande Amor da minha Vida num Grupo de Oração da RCC. Graças a ele e aos amigos que oravam sempre por nós, fomos seguindo.

Meu Casamento foi uma luta lembra pai? Você me deu de presente as alianças. Mais uma vez essa maldita doença te pegou e você não queria entrar comigo na igreja. Na última hora decidiu entrar, mas ficou toda aquela situação constrangedora. E eu entrei com você ao cheiro de álcool. Eu fiz vômitos, mas tinha que entrar. Era o dia mais feliz da minha vida! Mas podia ser melhor!

A minha Formatura, e do meu esposo foi linda e muito significante para mim. Pois naquela época já tinha minha primeira filha e foi muito difícil concluir a faculdade, pois já estava grávida de 06 meses do meu segundo filho. Na Colação de Grau todos estavam presentes e eu mesmo sabendo que deixei você em casa bêbado te procurei na multidão pra ouvir os seus aplausos, enquanto eu recebia o meu diploma. Mais uma vez você não estava lá. Seu lugar está vazio no álbum de fotografias. Chorei muito, mas a vida corre e o pranto tem que secar!

Tornei-me professora de Educação Infantil e logo me vi cada dia mais apaixonada pela Pedagogia do Olhar de Rubem Alves. E percebo a cada dia como é importante trabalhar o mundo das Sensibilidades, pois como diz Rubem, “A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades… Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido”.E assim sigo com meu juramento, minha ideologia de que cada criança que passar pelo meu caminho, eu vou olhar nos seus olhos e tentar ver os seus sentimentos, anseios, medos, inseguranças. Quem sabe elas não estão passando pelo mesmo conflito que vivi na infância e ainda vivo hoje.

Por causa da sua doença pai já tentei suicídio aos 09 anos (Graças à Deus não consegui), já tentei te matar aos 10

( Graças à Deus não consegui). Já te salvei de um suicídio (você ia se enforcar). Deus olhou por nós todo esse tempo!

Outro netinho está a caminho. Paulo está chegando para nos dar alegria! Nossa família vai aumentar e o Senhor Pai por causa dessa maldita doença não teve a honra de ver a minha irmã grávida. O quanto ela ficou bonita e iluminada. E também não pode sentir as batidas de Paulo se movendo na barriga e interagindo com a gente.

Tive a oportunidade de conhecer um pouco a sua história de vida. Sei que não foi fácil, você foi se tornando um Alcoólatra aos poucos dentro da própria casa. Inclusive todos os seus irmãos são alcoólatras. Você já participou de grupos de auto-ajuda AA (Alcoólicos Anônimos), Pastoral da Sobriedade, que sempre esteve de prontidão para colaborar conosco nas suas crises mais difíceis. Você é um Homem bom pai e eu só estou fazendo isso porque já não aguento te ver sofrendo. Perdendo emprego, família, dignidade.

É incrível essa doença que mata e fere tantas famílias ser tão desassistida pelo Poder Público. Os governos até tentam, mas de maneira ainda muito ineficaz combater essa praga. O Álcool é um câncer na Sociedade, pois destrói não só o dependente, mas toda a sua família. E é comprovado que é porta de entrada para outras drogas. Hoje é chique a Juventude ir às festinhas Open Bar regadas a Álcool. Bebem à vontade até caírem e são levados pra casa pelos amigos! E ainda postam em redes sociais se achando o máximo estarem ali segurando uma bebida renomada, cara. Que pena Jovens! Foi assim que meu pai e tantos outros começaram. bebendo “Socialmente”. Se afundando pouco a pouco. Reflitam Jovens! É possível sim ser um Jovem feliz sem as más influências do álcool e das drogas.

 Assistimos o Poder Público de mãos atadas sem saber direito resolver, e o que vemos são muitas casas de Recuperação desestruturadas sem o apoio necessário para o cuidado que exige na Recuperação dos dependentes. Meu pai já passou por três casas de Recuperação e infelizmente, ele não conseguiu permanecer até o final. A última inclusive o deixou sair sem ao menos comunicar a família, nos deixando transtornados, pois ele andou cerca de 7 km até chegar a uma rodoviária. Ele não é um Doente? Como se deixa um doente sair sozinho, sem rumo, num lugar desconhecido? Não quero aqui jogar culpa em ninguém, mas sim mostrar o quanto esses lugares precisam de ajuda. Necessitam de capacitação. Liguei para pedir informação do meu pai e desligaram o telefone na minha cara porque estava alterada. O Senhor atendente de maneira hostil me disse que meu pai era maior de idade e que não ia escutar abobrinhas. Também não o culpo pelo seu despreparo. Só queria que ele soubesse que não eram abobrinhas. Era o coração de uma filha aflita e desesperada sabendo do que seu pai é capaz de fazer alcoolizado. Como assim gente um dependente no auge da sua abstinência resolve não mais ficar e é solto como um bicho doente a Deus dará, sem nenhum dinheiro no bolso para ao menos se alimentar? Eu peço Socorro em nome de todos que passam por esse problema. Sei que a última chance que meu pai tem no momento é ir para uma clínica compulsória. Ele já está decadente no fundo do poço e não tem mais forças para lutar. É como um câncer que vai debilitando aos poucos até achegar a hora que a pessoa espera apenas a morte. Mas como falei o poder público ainda investe pouco, pois são caríssimas! Peço aos Senhores Prefeitos, Vereadores Deputados que pensem nesses filhos de Deus e que assim como a história do Bom Samaritano (Lucas 10:30-37), que encontrem esses feridos e ajudem a enxugar suas feridas. Não sejam como o Sacerdote e o Levita que fingiram que não via nada, mas como aquele homem, o bom samaritano que não sabemos nem se tinha religião, quebrou protocolos e se aproximou do homem ferido e teve compaixão. Derramou azeite, vinho em suas feridas. Estancou seu sangue e o levantou. Meu Pai é uma Pessoa boa, que precisa ser Tratado. O que é de ruim que ele fez sei que já está perdoado. E muitos iguais o meu pai estão precisando de ajuda, e a gente até passa por cima e não faz nada. Que Deus mande mais Bons Samaritanos e que comece em nós. Pois não adianta amar o senhor e não amar o próximo.

Separei alguns trechos da música de Fábio Júnior: Pai. Pois me enxergo nas letras dessa música: 

Pai

Eu cresci e não houve outro jeito

Quero só recostar no teu peito

Pra pedir pra você ir lá em casa 

E brincar de vovô com meus filhos (Lembra dos Modernais Shows no Quintal com os netinhos?)

No tapete da sala de estar

………………..

 

Pai

Você foi meu herói meu bandido.

Hoje é mais muito mais que um amigo (Espero ainda poder cantar esse refrão)

Nem você nem ninguém tá sozinho

Você faz parte desse caminho

Que hoje eu sigo em paz

…………………….

 

Pai

Pode crer

Eu tô bem eu vou indo (Mentira pai, eu não estou bem, hoje com 33 anos estou me recuperando de uma Depressão causada por todas as memórias que o seu Alcoolismo me trouxe, desenvolvi um transtorno de Ansiedade e Síndrome do Pânico. Está sendo difícil passar por tudo isso, os remédios me trazem efeitos colaterais fortíssimos. Mas sei que Deus está sempre comigo, o tempo todo. Acredito que nesse momento eu e você estejamos no colo dele)

Tô tentando vivendo e pedindo

Com loucura pra você renascer…

 

Eu sou Polliana Apóstolo Soares peço ajuda às autoridades para levar meu pai para uma Clínica de Reabilitação Compulsória e não tenho vergonha de dizer que sou filha de um Alcoólatra e que o amo e o perdoo por todas as feridas que foram causadas em mim através da sua doença. Assim como tantos filhos e filhas estão passando pelo mesmo problema que eu, peço a Deus que derrame a sua misericórdia e o seu olhar e que eles também possam conseguir perdoar os seus pais.

Por hoje é só, voei. 

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